Crítico inglês ataca Michel Teló: “sanfonas não tem espaço na música pop.”

Preconceito musical do mais baixo nível, no jornal inglês The Guardian.

, por Vinícius Ribeiro

Crítico inglês ataca Michel Teló: “sanfonas não tem espaço na música pop.”

Preconceito musical do mais baixo nível, no jornal inglês The Guardian.

, por Vinícius Ribeiro

Tudo bem, eu até entendo que ninguém mais aguenta ouvir “Ai Se Eu Te Pego” e que aconteceu com a música a mesma coisa que acontece com 11 entre 10 hits do verão: superexposição. No espaço de 2 ou 3 semanas, você ouve a música, no mínimo, 10 vezes ao dia. Assobia, cantarola, o ritmo fica na sua cabeça e você não consegue se livrar desse chiclete mental. Também aceito que tem as pessoas que simplesmente não gostam do estilo, da sonoridade ou da falta de profundidade na letra e de qualidade na voz de Michel Teló. Apesar de achar que as pessoas deviam se divertir mais e “analisar” menos em alguns momentos, eu entendo, respeito e aceito essas opiniões.

O que não dá pra entender nem aceitar é a opinião do crítico inglês Joe Bishop. Ontem, em sua coluna “This week’s new tracks” para o jornal The Guardian, Joe escreveu sobre o hit do sertanejo brasileiro:

Esta faixa é essencialmente a razão pela qual europeus e sul-americanos não podem ser confiados com nada relacionado ao cenário pop. Ela teve mais de 500 milhões de visualizações no YouTube, o que é a quantidade de retweets que Justin Bieber recebe simplesmente por dizer “Bom dia”, e é cortesia de Michel Teló, um músico brasileiro que acha que é legal colocar sanfonas em suas músicas. Deixe-me lhe dizer uma coisa Michel: sanfonas não tem lugar na música pop. É um instrumento antiquado que faz qualquer música soar como um jingle de uma rádio romena, e é exatamente isso que Ai Se Eu Te Pego parece.

Então vamos por partes. Joe diz que Justin Bieber tem muito mais retweets por dizer bom dia do que Michel Teló tem por cantar seu hit que ajudou a abrir as portas do mercado internacional para o sertanejo-pop-alegre-estou-em-ibiza brasileiro. Verdade, mas em minha humilde opinião isso não vale muito como julgamento. Justin é um lindo rapaz jovem com cabelo escovado, óculos da moda e um rebolado conquistador cantando para garotinhas que estão aprendendo a se masturbar. É óbvio que o público de Justin é maior e mais barulhento. É óbvio que, como um artista com milhões de dólares investidos em sua carreira e um excelente time de marketing, Justin vai ter um sucesso e um reconhecimento internacional muito maior que Teló. Então, obrigado por apontar o óbvio, Joe.

Sobre a frase seguinte – “sanfonas não tem lugar na música pop” – bem… Eu não posso dizer que entendo muito de música nem da história de como cada instrumento surgiu, evoluiu e é usado. O que conheço é definido por meus gostos e minhas influências, mas posso dizer que uma das coisas que eu mais aprecio em vários artistas é a capacidade de experimentar: levar instrumentos diferentes para músicas improváveis, virar um mercado de cabeça pra baixo. E tenho quase certeza que não sou o único que pensa assim. Acredito que, os instrumentos e seus sons estão aí para serem utilizados e que frases taxativas e preconceituosas como essa não devem ser levadas em conta. E acho que J-Lo não ficaria muito feliz de saber disso, também.

Não que a sanfona de Teló seja “experimental”, mas a mistura brasileira de sertanejo, country, pop, samba e funk nesse estilo novo que surgiu nos últimos anos, e tem Michel e Gusttavo Lima como seus principais representantes, é bastante válida em nossa cultura e bem divertida, me arrisco a dizer. Não produzimos nenhuma obra de arte, mas sabemos nos divertir, assim como nossos amigos americanos, europeus e britânicos. Falando neles, Joe Bishop segue:

A música é número 1 em praticamente todos os lugares menos aqui (Reino Unido) e nos EUA, onde as pessoas são normais, pensam direito e não falam português. Deus salve a Rainha e tudo o mais.

Não sei qual o conceito de normal de Joe, mas duvido muito que os americanos e britânicos sejam referência de normalidade, no mundo em que eu vivo. Mas quem sou eu – uma pessoa que não pensa direito – para julgar a opinião do todo-poderoso crítico do The Guardian? Sou só uma pessoa que fala português, se diverte, sai aos fins de semana com os amigos e dançava (no passado, porque já ficou meio velhinho, né?) Ai Se Eu Te Pego na balada. Ah, também dançava outras músicas com e sem a presença de sanfona, sempre me divertindo muito.

Por falar nisso, nossa supracitada amiga J-Lo conseguiu colocar seu jingle de rádio romena em primeiro lugar mesmo entre os inteligentíssimos britânicos e em terceiro na Hot 100 da Billboard americana. Que feito!

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