“Um Estranho no Lago” e o abismo do desejo carnal

Francisco Carbone analisa o filme que deu sustentação ao episódio #056 do NMC. Muita pegação e uma dura/pura realidade gay.

, por Francisco Carbone

“Um Estranho no Lago” e o abismo do desejo carnal

Francisco Carbone analisa o filme que deu sustentação ao episódio #056 do NMC. Muita pegação e uma dura/pura realidade gay.

, por Francisco Carbone

Um Estranho no Lago (L’Inconnu du Lac) (França – 2013)
Direção/Roteiro: Alain Guiraudie
Elenco: Pierre Deladonchamps, Christophe Paou, Patrick d’Assumçao.

É verão. Um local bem escondido num matagal, às margens de um lago, é o principal ponto de pegação encontros para homens gays. Franck, frequentador assíduo, conhece e se apaixona por Michel. Um homem atraente, poderoso e letalmente perigoso. Franck sabe disso, mas quer viver a sua paixão de qualquer jeito.

Talvez não caiba uma análise sobre o que o diretor Alain Guiraudie definiu como tema. Afinal, tudo é muito claro em motivações e mensagens, apesar de importantíssimas e cada vez mais atuais. Analisar sua voz talvez não seja tão necessário quanto analisar seu corpo, enquanto artista e autor. Porque no fim das contas, o que vemos ser construído é grande cinema pra onde se olha.

No frigir dos ovos, a trama do filme cabe num resumo bem rápido, mas, como todo grande filme, o que importa é a forma de filmá-la. E Guiraudie, que sempre passeou pela importância da identidade sexual e das questões de gênero, transforma o que seria, a princípio, uma absurda provocação gay num libelo sobre o poder das escolhas individuais. Quanto mais o protagonista Franck se embrenha nas suas arriscadas decisões, maior fica o painel sobre a sociedade homossexual nos dias de hoje e sobre a desenfreada busca pela felicidade (ai sim, sem qualquer questão de gênero) de maneira generalizada.

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Trabalhando com um elenco de novatos ou desconhecidos, o diretor encontrou pérolas em matéria de atores, como Patrick D’Assumpcão, e, além disso, ainda corre léguas a frente de seus longas anteriores com um bem azeitado flerte com um gênero cinematográfico tipicamente hollywoodiano, o thriller, mas trabalhando com o que de melhor seu talento poderia oferecer. Fotografia soberba, montagem sensacional, e a capacidade de transformar cada segundo numa montanha russa de desejo, medo e instabilidade emocional, “Um Estranho no Lago” é um dos mais bem sucedidos trabalhos de mise-en-scène do ano. Se imageticamente vemos situações eróticas semi-explícitas, elas servem para nos colocar no lugar de Franck, distraindo nossa libido para encobrir a próxima gota de suor ou sangue.

Porém, a produção de Guiraudie não é uma festa fechada aos gays. Franck é jovem, homem e procura. Como eu, você e o resto do mundo, tem sede. Antes de encontrar, Franck se permite tentar, ousar. E ele acha não uma possibilidade, mas duas. Dois caminhos opostos em busca do mesmo desfecho. Pedras estão por todos os lados, mas o difícil será escolher entre a tranquilidade da paz e a excitação da guerra. Franck finalmente acha o que procurava, duas vezes… abrir mão do outro. Essa tarefa só é possível pra quem está disposto a olhar além de si mesmo e analisar um futuro que pode até não existir.

Alain Guiraudie conjuga todos esses verbos (e muitos outros) num show de narrativa e construção dramática e o faz de maneira perfeita. Tudo isso a beira de um lago, onde todos os sentimentos serão testados, onde toda entrada de cena traz um elemento novo, onde tudo pode ser a última vez. E será. A propósito, Franck é gay. Tem medo do inseguro e dos fantasmas ao seu redor. Não quer ficar só. Quem de nós quer? Taí a universalidade do filme.

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Francisco Carbone é crítico de cinema e colaborador do site CinePlayers. Esse é um de seus textos publicados na página, que merece ser seguida por todos os nossos ouvintes!

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